Quatro amigas inseparáveis, quatro personalidades bem diferentes, quatro percursos moldados pelas cirscunstâncias. Como pano de fundo, a História de Portugal dos últimos vinte anos. Conflitos de gerações e de épocas, sonhos e paixões humanas, orgulho, ideais desfeitos. Dilemas, desencontros. O amor impossível e o amor real. Ruralidade e cosmopolitismo, saudades, da adolescência e da infância. Quatro mulheres, quatro destinos. E sempre, sempre o apelo da terra, o silêncio da planície.
Um romance de estreia que traz em epigrafe uma frase de E Tudo o Vento Levou: «A terra é a única coisa que conta na vida duma pessoa (…) É a única coisa no mundo que fica para além de nós. /Nunca te esqueças disso. / A terra é a única coisa pela qual vale a pena trabalhar, combater… até morrer.» Um amor à terra transposto para o Alentejo de meados de 70, em pleno PREC e com ocupações de herdades. As personagens principais saem de famílias de pequenos e grandes latifundiários, dos que nasceram e vivem para cuidar da terra recebida dos seus antepassados, que pretendem legar a seus netos. Tipos diversos de lavradores, com diferentes perspectivas sobre a gerência do seu património, mas tendo em comum um respeito mítico, quase sagrado, pelo cultivo da terra, fonte de pão. E são confrontados com a Reforma Agrária, com o ódio ou amizade dos seus jornaleiros, com justiças e injustiças revolucionárias.
Cenas verdadeiras mas inverosímeis, cujos ecos chegaram a Lisboa e ao Litoral, exemplarmente, concentradas na referência a um intragável churrasco de um garanhão de raça porque «demasiado fascista» (pág. 94). Mas é um mesmo sentimento telúrico e uma idêntica e atávica noção de posse que fundamentam os extremismos em ambas as partes. Dos dois lados da barricada defende-se convicção e sinceridade, a dimensão mais humana de bem conhecidas palavras de ordem: «A terra a quem a trabalha.»
«- Foi bom trabalhar convosco - e, virando-se para os ocupantes, berrou bem alto, articulando lentamente cada sílaba: - Que fique bem claro, no meio desta cazuada toda, não há um único dos trabalhadores das Runçadas.
- Fascistas, fascistas, vão-se embora daqui para fora.
- A terra a quem a trabalha! – berrou novamente a camponesa histérica em voz estridente.
- Nesse caso – retorquiu Diogo -,deveriam entregar esta terra aos trabalhadores das Runçadas e só a eles» (pág. 106).
Conta-se aqui a história de uma estripe com valores e princípios difíceis de entender por mentes urbanas, sujeitas a uma propriedade horizontal que se espraia dos tijolos do apartamento aos torrões do vaso na varanda. Uma geração já ela mal compreendida pelos seus próprios filhos, cujos desejos de liberdade e independência são coarctados pelas responsabilidades inerentes à posse, para quem o amor da terra se torna um fardo incompatível com outros amores.
Os acontecimentos particulares espelham a situação histórico-política do momento. Nunca panfletários, os casos políticos são apenas o contexto, condicionam a acção, as movimentações (da capital à Europa) e o desenvolvimento psicológico das personagens. Entrelaçadas com ritmo e alguma ironia, servem de pano de fundo às intrigas principais – amorosas, como se à espera de um romance. Estas evoluem em torno de quatro mulheres, quatro protótipos do feminino – Isabel, Antonieta, Margarida e Leonor. Ligadas à terra por amor, ódio, é ainda e sempre esta (e a política) que acaba por orientar as opções individuais destas «mulherezinhas» meio amazonas, que crescem e constatam que a vida real não obedece aos sonhos da adolescência, que as escolhas não são inocentes, que todo o amor, ou a sua ausência, se paga caro, que nem sempre quem parte é quem abandona.
Com uma estrutura tão sólida quanto inesperada, embora sem ousadias técnicas e obedecendo à tradicional arte de bem contar uma história, Silêncio na Planície é mais complexo do que pretende a sua aparente linearidade:confronta duas gerações, duas épocas histórico-políticas, duplos espaços (campo/cidade, nacional/estrangeiro), diversos e mais ou menos discretos modos de prepotência e chauvinismo, várias formas de amor e amizade. Numa linguagem doce e límpida, Maria do Céu Barradas brinca com alguns «papões» e sacode o pó aos «esqueletos» progressistas dos nossos armários.
Sinopse
Quatro amigas inseparáveis, quatro personalidades bem diferentes, quatro percursos moldados pelas cirscunstâncias. Como pano de fundo, a História de Portugal dos últimos vinte anos. Conflitos de gerações e de épocas, sonhos e paixões humanas, orgulho, ideais desfeitos. Dilemas, desencontros. O amor impossível e o amor real. Ruralidade e cosmopolitismo, saudades, da adolescência e da infância. Quatro mulheres, quatro destinos. E sempre, sempre o apelo da terra, o silêncio da planície.Ficha Técnica
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(0 comentários dos leitores)Críticas Literárias
por: Helena Barras em: 09 Abril 1994
Um romance de estreia que traz em epigrafe uma frase de E Tudo o Vento Levou: «A terra é a única coisa que conta na vida duma pessoa (…) É a única coisa no mundo que fica para além de nós. /Nunca te esqueças disso. / A terra é a única coisa pela qual vale a pena trabalhar, combater… até morrer.» Um amor à terra transposto para o Alentejo de meados de 70, em pleno PREC e com ocupações de herdades. As personagens principais saem de famílias de pequenos e grandes latifundiários, dos que nasceram e vivem para cuidar da terra recebida dos seus antepassados, que pretendem legar a seus netos. Tipos diversos de lavradores, com diferentes perspectivas sobre a gerência do seu património, mas tendo em comum um respeito mítico, quase sagrado, pelo cultivo da terra, fonte de pão. E são confrontados com a Reforma Agrária, com o ódio ou amizade dos seus jornaleiros, com justiças e injustiças revolucionárias.
Cenas verdadeiras mas inverosímeis, cujos ecos chegaram a Lisboa e ao Litoral, exemplarmente, concentradas na referência a um intragável churrasco de um garanhão de raça porque «demasiado fascista» (pág. 94). Mas é um mesmo sentimento telúrico e uma idêntica e atávica noção de posse que fundamentam os extremismos em ambas as partes. Dos dois lados da barricada defende-se convicção e sinceridade, a dimensão mais humana de bem conhecidas palavras de ordem: «A terra a quem a trabalha.»
«- Foi bom trabalhar convosco - e, virando-se para os ocupantes, berrou bem alto, articulando lentamente cada sílaba: - Que fique bem claro, no meio desta cazuada toda, não há um único dos trabalhadores das Runçadas.
- Fascistas, fascistas, vão-se embora daqui para fora.
- A terra a quem a trabalha! – berrou novamente a camponesa histérica em voz estridente.
- Nesse caso – retorquiu Diogo -,deveriam entregar esta terra aos trabalhadores das Runçadas e só a eles» (pág. 106).Conta-se aqui a história de uma estripe com valores e princípios difíceis de entender por mentes urbanas, sujeitas a uma propriedade horizontal que se espraia dos tijolos do apartamento aos torrões do vaso na varanda. Uma geração já ela mal compreendida pelos seus próprios filhos, cujos desejos de liberdade e independência são coarctados pelas responsabilidades inerentes à posse, para quem o amor da terra se torna um fardo incompatível com outros amores.
Os acontecimentos particulares espelham a situação histórico-política do momento. Nunca panfletários, os casos políticos são apenas o contexto, condicionam a acção, as movimentações (da capital à Europa) e o desenvolvimento psicológico das personagens. Entrelaçadas com ritmo e alguma ironia, servem de pano de fundo às intrigas principais – amorosas, como se à espera de um romance. Estas evoluem em torno de quatro mulheres, quatro protótipos do feminino – Isabel, Antonieta, Margarida e Leonor. Ligadas à terra por amor, ódio, é ainda e sempre esta (e a política) que acaba por orientar as opções individuais destas «mulherezinhas» meio amazonas, que crescem e constatam que a vida real não obedece aos sonhos da adolescência, que as escolhas não são inocentes, que todo o amor, ou a sua ausência, se paga caro, que nem sempre quem parte é quem abandona.
Com uma estrutura tão sólida quanto inesperada, embora sem ousadias técnicas e obedecendo à tradicional arte de bem contar uma história, Silêncio na Planície é mais complexo do que pretende a sua aparente linearidade: confronta duas gerações, duas épocas histórico-políticas, duplos espaços (campo/cidade, nacional/estrangeiro), diversos e mais ou menos discretos modos de prepotência e chauvinismo, várias formas de amor e amizade. Numa linguagem doce e límpida, Maria do Céu Barradas brinca com alguns «papões» e sacode o pó aos «esqueletos» progressistas dos nossos armários.