"Prólogo, antelóquio ou prefácio é o escrito que apresenta a obra aos leitores. Venha praxe de cortesia, serve de síntese do escrito e permite justificações, confissão de erros e falhas. Quando este discurso preliminar é redigido por outrém que não o autor, redunda, no mais das vezes, esta vetusta tradição em elogio que o público lê numa atitude de suspicácia. As linhas que introduzem esta obra constituem sobretudo uma confessa justificação, porquanto de insuficiências, erros e falhas o leitor deles dará conta. Durante cerca de três anos o subscritor destas linhas, por razões profissionais, contactou quotidianamente e de forma estreita com o sistema prisional português. Esta aproximação permitiu ouvir todos os intervenientes, ver as circunstâncias concretas do dia a dia carceral, conhecer algumas dificuldades estruturais e conjunturais do sistema, lidar de perto com as carências e especificidades do quotidiano prisional e, amiúde, constatar a ausência de reflexão fundamentada sobre os múltiplos aspectos desta instituição total. Para além de raras e honrosas excepções, em regra incidindo sobre aspectos muito específicos, não existem entre nós estudos penitenciários e o discurso que sobre o tema se instalou prima pelo desconhecimento. Discurso meramente opinativo, potenciado e alimentado pela comunicação social em que se troca o saber pela divulgação fácil e porventura errónea, exibe-se o cortejo das opiniões mais infundamentadas, confundindo-se o público com palavras e ideias soltas que só aparentemente ou por mero acaso se adequam à realidade dos factos. Da forma mais inconsequente põe-se em causa o sistema prisional, denigre-se os diversos intervenientes numa espiral de sensacionalismo. Nesse vórtice cometem-se grandes injustiças e elaboram-se erros crassos, destes últimos resultam, de forma avulsa, feridas para o sistema e para os vários intervenientes no quotidiano prisional que podem deixar marcas tão inconsequentes como nefastas. O sistema penitenciário não é nem nunca será perfeito, ele constitui uma forma lamentável de intervenção do Estado. Embora lamentável é, neste momento histórico, necessário à sociedade e tudo indica que nos anos que se avizinham continue a ser e de forma potenciada a resposta a determinado tipo de desvio, dito de criminal. Anquilosado, o sistema prisional português debate-se com problemas crónicos como seja o da sobrepopulação prisional. Mas este é apenas um dos problemas, sendo o mais facilmente mensurável e, portanto, evidente. Poderá não ser o mais grave — ou percebido como tal —, em termos de consequências na população prisional e na sociedade. Recorde-se, por exemplo, o alastramento da droga e da sida nos estabelecimentos prisionais, a insuficiência de cuidados médicos ou a insegurança face os demais encarcerados, a constituir preocupação bem mais nefasta do ponto de vista da população reclusa. Na perspectiva de quem trabalha intra-muros, a crónica carência de meios, a falta de incentivos, a incompreensão e o desvalor a que são votados por uma sociedade acobertada e negligente ou propositadamente míope em relação à realidade prisional... E, por outro prisma, a elevada taxa de reincidência, a insegurança decorrente da menor eficácia dos sistemas de controlo social, a constituir uma preocupação crescente numa perspectiva exterior aos muros da prisão. Detectar as disfunções, actuar sobre as causas das falhas, torna-se assim um imperativo para o sistema prisional. De outra forma, a acção mais não é do que um esforço cego, adiando-se sucessivamente qualquer reforma consequente. E, adite-se, corre-se o risco de introduzir pseudo soluções que mais contribuirão para o desgaste do sistema prisional vigente. O esforço e o empenhamento da grande maioria dos operadores do sistema penitenciário e judiciário, numa área carente, nos mais diversos planos, e cronicamente desajustada à actualidade, é num conspecto geral baldado. São batalhas quotidianas, esforços sempre repetidos, canceiras sucessivas, sem recompensa que não seja a de se ter feito o melhor que era possível fazer... sabendo-se que não está bem. Nos inícios do ano de 2002, a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais, dando execução ao disposto no n.º 3, do art. 57. º do Decreto-Lei n. 265/79, de l de Agosto, numa atitude inovadora entre nós, procedeu a uma investigação sobre as licenças de saída prolongada, vulgo saídas precárias. Essa investigação teve início em 2002, tendo encerrado a fase da recolha no terreno em meados desse mesmo ano. Desse trabalho resultou um manancial de informação que permitiu a elaboração de diversos estudos, quatro dos quais estão inseridos no presente volume, o primeiro de dois. Cada um destes quatro estudos é autónomo em relação ao conjunto dos dois volumes. Essa autonomia deriva da diversidade dos seus co-autores. Pese os benefícios da auto-suficiência de cada um dos estudos, será possível surpreender na respectiva fase introdutória de cada um alguma repetição, foi um risco assumido e imposto pela coerência interna de cada trabalho. O presente volume reúne alguns estudos que em comum têm por objecto a realidade penitenciária recolhida na aludida investigação e, ainda, um outro que neste tomo os precede, sobre a legislação penitenciária. Não se empreende, assim, um estudo sistemático sobre o tema penitenciário, aborda-se apenas alguns dos seus aspectos. Neste primeiro tomo, agregam-se os seguintes estudos: Notas sobre a legislação penitenciária portuguesa. Moraes Rocha & Catarina Sá Gomes Reclusões, números e interrogações. Moraes Rocha & Isabel Tiago Oliveira Motivação para o regresso. Moraes Rocha, Bruno Caldeira, Ana Miguel & Paula Tavares Não voltar... Moraes Rocha & Ana Miguel Determinante rede social nas saídas precárias. Moraes Rocha & Sofia Silvério Reflectir sobre o penitenciário é um risco tão grande quanto a multiplicidade de temas, enfoques e problemas que aquela realidade encerra. Não existe uma prisão, existem prisões. Entre o Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus e a cadeia da Horta não são só a dimensão dos muros que diferem, tudo é diferente. E, cada recluso é um mundo, cada equipe prisional um universo, cada director um director. O ""gradão"" bate de forma diferente em cada estabelecimento prisional e, de forma diversa no mesmo estabelecimento, dependendo da concreta ocupação, isto é, das pessoas que em determinado lapso de tempo o habitam. Este pano de fundo, de alguma forma simultaneamente multifacetado, cinzento e indefinido para a generalidade dos observadores, confere uma opacidade pertinaz, avessa a abordagens voluntariosas. Cientes do risco, estes estudos assumem-se como um esforço de racionalização. Uma forma de abordar o tema penitenciário que vá para além do aparente, que procure causas e sentidos. Que abra caminhos do mesmo passo que reconheça o desconhecimento, muitas vezes reconhecer a ignorância é o primeiro degrau do conhecimento. Esta colectânea de estudos não seria possível sem co-autoria. A sua diversidade e extensão exigiram dedicação, dispêndio de tempo e profundidade de análise que o signatário não comportava a sós. Foi uma necessidade mas também uma honra e um prazer contar com a participação dos co-autores que pela sua diversa formação profissional, permitiu uma maior riqueza de análise. Que o esforço de racionalização seja útil para elevar o debate sobre o penitenciário é o desiderato sincero dos autores, que possa servir para melhorar as condições de trabalho no sistema penitenciário e tornar útil, para o recluso e para a sociedade, o tempo de reclusão são a ilusão do subscritor destas linhas. Ericeira, 2004 João Luís de Moraes Rocha "
Sinopse
"Prólogo, antelóquio ou prefácio é o escrito que apresenta a obra aos leitores. Venha praxe de cortesia, serve de síntese do escrito e permite justificações, confissão de erros e falhas. Quando este discurso preliminar é redigido por outrém que não o autor, redunda, no mais das vezes, esta vetusta tradição em elogio que o público lê numa atitude de suspicácia. As linhas que introduzem esta obra constituem sobretudo uma confessa justificação, porquanto de insuficiências, erros e falhas o leitor deles dará conta. Durante cerca de três anos o subscritor destas linhas, por razões profissionais, contactou quotidianamente e de forma estreita com o sistema prisional português. Esta aproximação permitiu ouvir todos os intervenientes, ver as circunstâncias concretas do dia a dia carceral, conhecer algumas dificuldades estruturais e conjunturais do sistema, lidar de perto com as carências e especificidades do quotidiano prisional e, amiúde, constatar a ausência de reflexão fundamentada sobre os múltiplos aspectos desta instituição total. Para além de raras e honrosas excepções, em regra incidindo sobre aspectos muito específicos, não existem entre nós estudos penitenciários e o discurso que sobre o tema se instalou prima pelo desconhecimento. Discurso meramente opinativo, potenciado e alimentado pela comunicação social em que se troca o saber pela divulgação fácil e porventura errónea, exibe-se o cortejo das opiniões mais infundamentadas, confundindo-se o público com palavras e ideias soltas que só aparentemente ou por mero acaso se adequam à realidade dos factos. Da forma mais inconsequente põe-se em causa o sistema prisional, denigre-se os diversos intervenientes numa espiral de sensacionalismo. Nesse vórtice cometem-se grandes injustiças e elaboram-se erros crassos, destes últimos resultam, de forma avulsa, feridas para o sistema e para os vários intervenientes no quotidiano prisional que podem deixar marcas tão inconsequentes como nefastas. O sistema penitenciário não é nem nunca será perfeito, ele constitui uma forma lamentável de intervenção do Estado. Embora lamentável é, neste momento histórico, necessário à sociedade e tudo indica que nos anos que se avizinham continue a ser e de forma potenciada a resposta a determinado tipo de desvio, dito de criminal. Anquilosado, o sistema prisional português debate-se com problemas crónicos como seja o da sobrepopulação prisional. Mas este é apenas um dos problemas, sendo o mais facilmente mensurável e, portanto, evidente. Poderá não ser o mais grave — ou percebido como tal —, em termos de consequências na população prisional e na sociedade. Recorde-se, por exemplo, o alastramento da droga e da sida nos estabelecimentos prisionais, a insuficiência de cuidados médicos ou a insegurança face os demais encarcerados, a constituir preocupação bem mais nefasta do ponto de vista da população reclusa. Na perspectiva de quem trabalha intra-muros, a crónica carência de meios, a falta de incentivos, a incompreensão e o desvalor a que são votados por uma sociedade acobertada e negligente ou propositadamente míope em relação à realidade prisional... E, por outro prisma, a elevada taxa de reincidência, a insegurança decorrente da menor eficácia dos sistemas de controlo social, a constituir uma preocupação crescente numa perspectiva exterior aos muros da prisão. Detectar as disfunções, actuar sobre as causas das falhas, torna-se assim um imperativo para o sistema prisional. De outra forma, a acção mais não é do que um esforço cego, adiando-se sucessivamente qualquer reforma consequente. E, adite-se, corre-se o risco de introduzir pseudo soluções que mais contribuirão para o desgaste do sistema prisional vigente. O esforço e o empenhamento da grande maioria dos operadores do sistema penitenciário e judiciário, numa área carente, nos mais diversos planos, e cronicamente desajustada à actualidade, é num conspecto geral baldado. São batalhas quotidianas, esforços sempre repetidos, canceiras sucessivas, sem recompensa que não seja a de se ter feito o melhor que era possível fazer... sabendo-se que não está bem. Nos inícios do ano de 2002, a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais, dando execução ao disposto no n.º 3, do art. 57. º do Decreto-Lei n. 265/79, de l de Agosto, numa atitude inovadora entre nós, procedeu a uma investigação sobre as licenças de saída prolongada, vulgo saídas precárias. Essa investigação teve início em 2002, tendo encerrado a fase da recolha no terreno em meados desse mesmo ano. Desse trabalho resultou um manancial de informação que permitiu a elaboração de diversos estudos, quatro dos quais estão inseridos no presente volume, o primeiro de dois. Cada um destes quatro estudos é autónomo em relação ao conjunto dos dois volumes. Essa autonomia deriva da diversidade dos seus co-autores. Pese os benefícios da auto-suficiência de cada um dos estudos, será possível surpreender na respectiva fase introdutória de cada um alguma repetição, foi um risco assumido e imposto pela coerência interna de cada trabalho. O presente volume reúne alguns estudos que em comum têm por objecto a realidade penitenciária recolhida na aludida investigação e, ainda, um outro que neste tomo os precede, sobre a legislação penitenciária. Não se empreende, assim, um estudo sistemático sobre o tema penitenciário, aborda-se apenas alguns dos seus aspectos. Neste primeiro tomo, agregam-se os seguintes estudos: Notas sobre a legislação penitenciária portuguesa. Moraes Rocha & Catarina Sá Gomes Reclusões, números e interrogações. Moraes Rocha & Isabel Tiago Oliveira Motivação para o regresso. Moraes Rocha, Bruno Caldeira, Ana Miguel & Paula Tavares Não voltar... Moraes Rocha & Ana Miguel Determinante rede social nas saídas precárias. Moraes Rocha & Sofia Silvério Reflectir sobre o penitenciário é um risco tão grande quanto a multiplicidade de temas, enfoques e problemas que aquela realidade encerra. Não existe uma prisão, existem prisões. Entre o Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus e a cadeia da Horta não são só a dimensão dos muros que diferem, tudo é diferente. E, cada recluso é um mundo, cada equipe prisional um universo, cada director um director. O ""gradão"" bate de forma diferente em cada estabelecimento prisional e, de forma diversa no mesmo estabelecimento, dependendo da concreta ocupação, isto é, das pessoas que em determinado lapso de tempo o habitam. Este pano de fundo, de alguma forma simultaneamente multifacetado, cinzento e indefinido para a generalidade dos observadores, confere uma opacidade pertinaz, avessa a abordagens voluntariosas. Cientes do risco, estes estudos assumem-se como um esforço de racionalização. Uma forma de abordar o tema penitenciário que vá para além do aparente, que procure causas e sentidos. Que abra caminhos do mesmo passo que reconheça o desconhecimento, muitas vezes reconhecer a ignorância é o primeiro degrau do conhecimento. Esta colectânea de estudos não seria possível sem co-autoria. A sua diversidade e extensão exigiram dedicação, dispêndio de tempo e profundidade de análise que o signatário não comportava a sós. Foi uma necessidade mas também uma honra e um prazer contar com a participação dos co-autores que pela sua diversa formação profissional, permitiu uma maior riqueza de análise. Que o esforço de racionalização seja útil para elevar o debate sobre o penitenciário é o desiderato sincero dos autores, que possa servir para melhorar as condições de trabalho no sistema penitenciário e tornar útil, para o recluso e para a sociedade, o tempo de reclusão são a ilusão do subscritor destas linhas. Ericeira, 2004 João Luís de Moraes Rocha "Ficha Técnica
- Actualmente 0 estrelas
- 1
- 2
- 3
- 4
- 5
(0 comentários dos leitores)