Em 2003, regressando do Afeganistão, tive de parar em
Baku, no Azerbaijão. Fiquei num hotel chamado Apcheron, nome da
península sobre a qual a cidade foi construída. Escrevia na altura Suite
no Hotel Crystal, um livro composto por umas quarenta histórias
passadas em quartos de hotel do mundo inteiro. O nome Apcheron, tão
próximo do do rio dos mortos grego, sugeriu-me a ideia de aí encenar o
meu próprio suicídio. A nota biográfica na capa do livro viria a
mencionar a minha data de nascimento e de morte: Boulogne-Billancourt,
1947 - Baku, 2009. A partir de 2004, eu tinha pois morrido em Baku em
2009, no quarto 1123 do Hotel Apcheron.À medida que esse fatídico ano de 2009 se ia
aproximando, as recomendações dos amigos tornavam-se mais insistentes:
se fores convidado para ir a Baku em 2009, não vás! Estes alertas
fizeram naturalmente nascer em mim a ideia de que, pelo contrário, devia
mesmo ir a Baku, para honrar uma espécie de promessa e aí permanecer o
tempo suficiente para dar à ficção da minha morte à beira do Cáspio uma
razoável hipótese de se concretizar. Este livro é, em certa medida, o
diário da minha estada na cidade onde era suposto morrer. Retratos,
coisas vistas, sonhos, leituras, notas de viagem, evocação de figuras do
passado, etc. Claro que se tratava de um jogo, iniciado por um jogo de
palavras, mas esse jogo dava um certo colorido aos meus pensamentos,
orientava até certo ponto as minhas imaginações e mesmo os meus olhares.
Sinopse
Ficha Técnica
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