«Havia nela como que uma falha que provinha talvez da exaustão e da
deficiência alimentar, dando-lhe um ar furtivo, de gazela, que fez cair
as apresentações. Lizzie passou para detrás da porta abandonada que servia de biombo e
regressou vestida de rapaz. Apanhara o cabelo sobre a nuca. Mostrava as
pernas e isso produzia um curioso efeito assexuado. Gabriel adiantou-se e
começou a ocupar-se da figura que faltava, não nos papéis de esboço,
mas na tela. As personagens masculinas já se achavam muito avançadas.
Ele posara para bobo. Os pré-rafaelitas provocavam situações de
enteajuda em que existia, a par de exibição, sinceridade. Deverell e Millais arrefeciam, de pé, imóveis e a perder entusiasmo.
Viam em Lizzie a rapariga magra e de feições irregulares que até então
não tinham visto. A narrativa de Walter, que avassalara o próprio
narrador, deixava de exercer influência e a temperatura dos seus corpos
ressentia-se. Esfregavam os braços, percebendo toda a impiedade do
Inverno. Observavam Rossetti e Miss Sid que estavam sós, naquilo que
talvez fosse o encontro do pintor com o modelo. Porém sentiam
desconforto, como se presenciassem uma cena íntima. Lizzie, que mantivera a posição sem vacilar nos dias anteriores, vergava
as costas, inclinada para o chão. Era um abatimento poderoso sob o qual
circulava alguma glória. John Everett Millais compreendeu a origem do
fascínio de Miss Sid. Tinha um corpo selado na tragédia, um apetite
sacrificial. "Hei-de pintar esta mulher", pensou. Imaginava-a num
cenário de narcisos. Não sabia que estava a vê-la morta.»
Sinopse
Lizzie passou para detrás da porta abandonada que servia de biombo e regressou vestida de rapaz. Apanhara o cabelo sobre a nuca. Mostrava as pernas e isso produzia um curioso efeito assexuado. Gabriel adiantou-se e começou a ocupar-se da figura que faltava, não nos papéis de esboço, mas na tela. As personagens masculinas já se achavam muito avançadas. Ele posara para bobo. Os pré-rafaelitas provocavam situações de enteajuda em que existia, a par de exibição, sinceridade.
Deverell e Millais arrefeciam, de pé, imóveis e a perder entusiasmo. Viam em Lizzie a rapariga magra e de feições irregulares que até então não tinham visto. A narrativa de Walter, que avassalara o próprio narrador, deixava de exercer influência e a temperatura dos seus corpos ressentia-se. Esfregavam os braços, percebendo toda a impiedade do Inverno. Observavam Rossetti e Miss Sid que estavam sós, naquilo que talvez fosse o encontro do pintor com o modelo. Porém sentiam desconforto, como se presenciassem uma cena íntima.
Lizzie, que mantivera a posição sem vacilar nos dias anteriores, vergava as costas, inclinada para o chão. Era um abatimento poderoso sob o qual circulava alguma glória. John Everett Millais compreendeu a origem do fascínio de Miss Sid. Tinha um corpo selado na tragédia, um apetite sacrificial. "Hei-de pintar esta mulher", pensou. Imaginava-a num cenário de narcisos. Não sabia que estava a vê-la morta.»
Ficha Técnica
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