Introdução, fixação do texto e notas de António Cândido Franco Da Introdução: «Podem achar-se acanhadas, para quem tanto se anima de madrugador e de andarilho, as passadas curtas que o epicurista narrador das Viagens na Minha Terra dá entre uma Lisboa suja com um Terreiro do Paço sombrio e um Ribatejo de algibeira, a acabar em Santarém, num raio de escassíssimas léguas. Pergunta-se logo: serão estas as famigeradas viagens de Garrett? Responde-se também de imediato: são, que o vigor com que o narrador as dá, respirando com a mesma sofreguidão compassada e vital o vermelho da madrugada e o azul de um cigarro fumado ao pé de ílhavos e campinos, põe em quadrícula lusitana a viagem e redime bem a pequenez quase infantil do percurso. Os passeios que se dão nas Viagens podem julgar-se ainda por de mais vulgares, com um rio, um pinhal e um cerro, vergonhosamente insignificantes ao pé das tropicais savanas africanas ou das transcendentes pradarias americanas. Todavia, também o modo como tais passeios se dão, sobretudo naquele troço que vai do Tejo até ao pinhal da Azambuja, com uma água adocicada onde boiam duas moscas e um jumentinho que faz ralhar de felicidade o narrador, há-de sempre constituir o lugar de uma grandeza que só cresceu com o asfalto do século XX. Atentar no modo como Garrett viajou e no que viu em tão curto espaço, dando tão fartas e bem humoradas risadas, é hoje, quando vivemos por entre tiras de alcatrão com a doença da velocidade, como reconhecer com devaneadora satisfação os arcaicos vestígios de uma vida paradisíaca. … Assim como assim, a linguagem do Garrett das Viagens continua hoje a ensinar-nos a falar português, qualquer lojista das letras tem obrigação de franquear essa escola, aprendendo nela a arte admirável e magistral de conduzir nas palavras a electricidade criacionista da liberdade e da graça.»
Sinopse
Introdução, fixação do texto e notas de António Cândido Franco Da Introdução: «Podem achar-se acanhadas, para quem tanto se anima de madrugador e de andarilho, as passadas curtas que o epicurista narrador das Viagens na Minha Terra dá entre uma Lisboa suja com um Terreiro do Paço sombrio e um Ribatejo de algibeira, a acabar em Santarém, num raio de escassíssimas léguas. Pergunta-se logo: serão estas as famigeradas viagens de Garrett? Responde-se também de imediato: são, que o vigor com que o narrador as dá, respirando com a mesma sofreguidão compassada e vital o vermelho da madrugada e o azul de um cigarro fumado ao pé de ílhavos e campinos, põe em quadrícula lusitana a viagem e redime bem a pequenez quase infantil do percurso. Os passeios que se dão nas Viagens podem julgar-se ainda por de mais vulgares, com um rio, um pinhal e um cerro, vergonhosamente insignificantes ao pé das tropicais savanas africanas ou das transcendentes pradarias americanas. Todavia, também o modo como tais passeios se dão, sobretudo naquele troço que vai do Tejo até ao pinhal da Azambuja, com uma água adocicada onde boiam duas moscas e um jumentinho que faz ralhar de felicidade o narrador, há-de sempre constituir o lugar de uma grandeza que só cresceu com o asfalto do século XX. Atentar no modo como Garrett viajou e no que viu em tão curto espaço, dando tão fartas e bem humoradas risadas, é hoje, quando vivemos por entre tiras de alcatrão com a doença da velocidade, como reconhecer com devaneadora satisfação os arcaicos vestígios de uma vida paradisíaca. … Assim como assim, a linguagem do Garrett das Viagens continua hoje a ensinar-nos a falar português, qualquer lojista das letras tem obrigação de franquear essa escola, aprendendo nela a arte admirável e magistral de conduzir nas palavras a electricidade criacionista da liberdade e da graça.»Ficha Técnica
- Actualmente 0 estrelas
- 1
- 2
- 3
- 4
- 5
(0 comentários dos leitores)