Um motivo essencial de Uma Fábula é o da possibilidade de o sujeito pensar a sua identidade pessoal, no contexto de uma existência dissemelhante, que se caracteriza pela metamorfose, e portanto por um processo de descontinuidades ônticas. Na estrita dependência deste dilema, localiza-se a angústia emotiva não já de quem é incapaz de amar ou não é correspondido, mas de quem, em virtude da impossível diferenciação em relação ao tu, não sabe exactamente quem ama e tem como resposta o eco das suas próprias palavras, repercutido por si mesmo e pelos fantasmas que o habitam. (...)Nesta fábula, que é uma espécie de conversa privada de interlocutores com posições dramáticas determinadas, pela necessidade de iludir o solipsismo e o cepticismo, mas com as identidades difusas e translúcidas dos fantasmas, o outro habita o próprio sujeito. Como se pode amar, realizar a vontade de amar, se o objecto do amor se reduz e apenas se deixa traduzir nas palavras de desejo de quem ama, não possuindo identidade ou sequer as marcas de um rosto?: Não tinhas, reparei, identidade. Faltara-te, ou perderas, identikit, umbigo de fabrico, carte de séjour, só ficaram as marcas distintivas de um humano rosto, e depois também elas se apagaram ou multiplicaram nos humanos gestos amados, e na cegueira do humano desejo desejado, da palavra tu”. Como posso agora começar a falar-te? Ninguém melhor conhece o amor, e o desprezo do amor.
Sinopse
Um motivo essencial de Uma Fábula é o da possibilidade de o sujeito pensar a sua identidade pessoal, no contexto de uma existência dissemelhante, que se caracteriza pela metamorfose, e portanto por um processo de descontinuidades ônticas. Na estrita dependência deste dilema, localiza-se a angústia emotiva não já de quem é incapaz de amar ou não é correspondido, mas de quem, em virtude da impossível diferenciação em relação ao tu, não sabe exactamente quem ama e tem como resposta o eco das suas próprias palavras, repercutido por si mesmo e pelos fantasmas que o habitam. (...)Nesta fábula, que é uma espécie de conversa privada de interlocutores com posições dramáticas determinadas, pela necessidade de iludir o solipsismo e o cepticismo, mas com as identidades difusas e translúcidas dos fantasmas, o outro habita o próprio sujeito. Como se pode amar, realizar a vontade de amar, se o objecto do amor se reduz e apenas se deixa traduzir nas palavras de desejo de quem ama, não possuindo identidade ou sequer as marcas de um rosto?: Não tinhas, reparei, identidade. Faltara-te, ou perderas, identikit, umbigo de fabrico, carte de séjour, só ficaram as marcas distintivas de um humano rosto, e depois também elas se apagaram ou multiplicaram nos humanos gestos amados, e na cegueira do humano desejo desejado, da palavra tu”. Como posso agora começar a falar-te? Ninguém melhor conhece o amor, e o desprezo do amor.Ficha Técnica
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