Estamos perante um objecto invulgar, observação que parecerá redundante aos que têm acompanhado o percurso de Paulo da Costa Domingos. [...] [...] Paulo da Costa Domingos recorda magistralmente uma época em que o Outro tem um papel fundamental, um peso único na festa triste do mundo. Veja-se, por exemplo, o modo firme e elogioso como são evocados João César Monteiro, Luiza Neto Jorge ou Eduardo Guerra Carneiro. Mais extensas e igualmente justas são as referências a Vitor Silva Tavares, que foi e é, “para três ou quatro gerações de poetas, uma inesquecível lição de não-alinhamento sistemático”. Pelo meio surgem cafés que já não existem, tertúlias propícias ao excesso e à “noivadiagem”, iniciações à arte tipográfica em que Paulo da Costa Domingos (sobretudo nas décadas de 80 e 90) se tornou o nosso miglior fabbro e um dos mais inventivos editores europeus. A receita, simples mas ao alcance de poucos, é-nos dada de forma inequívoca: “Manter um vigilante e apertado nexo entre qualquer significado estético e os seus modos de produção e difusão – disto nunca se deve abrir mão.” [...] Congruentemente, a figura do intelectual ou do funcionário poético é alvo de extrema corrosão. Aos “consumidores de ideias feitas” e à “escumalha da crítica e do jornalismo”, Paulo da Costa Domingos contrapõe, sem rodeios, que “ler não chega; há que ver e ouvir pela abertura do coração, comovidamente”. Isto concorre, fatalmente, para isolar ainda mais o autor – cuja rara capacidade de denúncia extravasa, aliás, o domínio literário, ao lembrar “aqueles a quem roubaram o sorriso”, pois “Portugal é isto: uma fila de velhos muito pobres, verdade e fingimento, à porta de um dispensário, num coro constante de tosses”. Mas é entre ruínas, diante dos piores destroços, que nasce às vezes o festim: “A nossa exuberância decorre da ruína universal, do vasto arraial da putrefacção em redor.” Era de um livro destes, seco e implacável, que estávamos a precisar.» (Manuel de Freitas, in Expresso, 15 de Agosto, 2009)
Sinopse
Estamos perante um objecto invulgar, observação que parecerá redundante aos que têm acompanhado o percurso de Paulo da Costa Domingos. [...]
[...] Paulo da Costa Domingos recorda magistralmente uma época em que o Outro tem um papel fundamental, um peso único na festa triste do mundo. Veja-se, por exemplo, o modo firme e elogioso como são evocados João César Monteiro, Luiza Neto Jorge ou Eduardo Guerra Carneiro. Mais extensas e igualmente justas são as referências a Vitor Silva Tavares, que foi e é, “para três ou quatro gerações de poetas,
uma inesquecível lição de não-alinhamento sistemático”. Pelo meio surgem cafés que já não existem, tertúlias propícias ao excesso e à “noivadiagem”, iniciações à arte tipográfica em que Paulo da Costa Domingos (sobretudo nas décadas de 80 e 90) se tornou o nosso miglior fabbro e um dos mais inventivos editores europeus. A receita, simples mas ao alcance de poucos, é-nos dada de forma inequívoca: “Manter um vigilante e apertado nexo entre qualquer significado estético e os seus modos de produção e difusão – disto nunca se deve abrir mão.” [...]
Congruentemente, a figura do intelectual ou do funcionário poético é alvo de extrema corrosão. Aos “consumidores de ideias feitas” e à “escumalha da crítica e do jornalismo”, Paulo da Costa Domingos contrapõe, sem rodeios, que “ler não chega; há que ver e ouvir pela abertura do coração, comovidamente”. Isto concorre, fatalmente, para isolar ainda mais o autor – cuja rara capacidade de denúncia extravasa, aliás, o domínio literário, ao lembrar “aqueles a quem roubaram o sorriso”, pois “Portugal é isto: uma fila de velhos muito pobres, verdade e fingimento, à porta de um dispensário, num coro constante de tosses”. Mas é entre ruínas, diante dos piores destroços, que nasce às vezes o festim: “A nossa exuberância decorre da ruína universal, do vasto arraial da putrefacção em redor.” Era de um livro destes, seco e implacável, que estávamos a precisar.»
(Manuel de Freitas, in Expresso, 15 de Agosto, 2009)
Ficha Técnica
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