A experiência da violação é, certamente, marcada pela ausência de palavras, pela voz sufocada, pelas palavras que estancam na garganta, porque a dor, a violência, impede que ela seja dita, porque a intensidade dessa experiência provoca – à semelhança, de um modo deslocado, do que acontece às místicas – “a impotência do logos em exprimir a sua experiência interior”. Também os lugares – a nível institucional ou pessoal – onde essa experiência se possa dizer são raros, na ausência de escuta adequada, é que falar é dar a ver-se, de modo íntimo, numa intimidade que foi esventrada, escancarada e muitas vezes por rostos próximos, em quem se confiava, é que falar é não temer que, apesar da violência, a culpa se volte sobre si própria, reforçando a dor com essa culpabilidade. E no entanto poder contar, dar voz a este acontecimento traumático, é seguramente um modo de poder ter de novo uma fala sobre si e sobre os outros, de novo poder olhar e ver e acreditar.Este texto de Susana Maria, dissertação de Mestrado em Estudos sobre as Mulheres na Universidade Aberta, é também ele uma forma de dar voz às mulheres vítimas de violação, ajudando a que essa fala se elabore não só de modo pessoal, mas que circule por outros e outras como quem pede e cria companhia. Interessou-me nele a tentativa de um deslocamento no olhar, no estar, porque de modo afirmativo: apesar da dor e do horror, estas mulheres são sobreviventes, resistentes, como pode ser lido nos seus percursos de vida. É uma questão política, por isso. A passagem de vítimas a sobreviventes é também uma forma de acreditar que os humanos podem criar relações solidárias, já que em todos os percursos aqui contados não há relações entre homens e mulheres, mas violência de uns sobre outras. Contributo também para um debate inesgotável sobre as questões da violência e do erotismo.Assim, partindo da ausência de palavras que marca a experiência da violação, se formula aqui uma palavra que possa circular e criar contextos em que, colectivamente, essas experiências possam ser ditas e escutadas, e dessas escutas outros percursos de resistência se possam traçar.
Sinopse
A experiência da violação é, certamente, marcada pela ausência de palavras, pela voz sufocada, pelas palavras que estancam na garganta, porque a dor, a violência, impede que ela seja dita, porque a intensidade dessa experiência provoca – à semelhança, de um modo deslocado, do que acontece às místicas – “a impotência do logos em exprimir a sua experiência interior”. Também os lugares – a nível institucional ou pessoal – onde essa experiência se possa dizer são raros, na ausência de escuta adequada, é que falar é dar a ver-se, de modo íntimo, numa intimidade que foi esventrada, escancarada e muitas vezes por rostos próximos, em quem se confiava, é que falar é não temer que, apesar da violência, a culpa se volte sobre si própria, reforçando a dor com essa culpabilidade. E no entanto poder contar, dar voz a este acontecimento traumático, é seguramente um modo de poder ter de novo uma fala sobre si e sobre os outros, de novo poder olhar e ver e acreditar.Este texto de Susana Maria, dissertação de Mestrado em Estudos sobre as Mulheres na Universidade Aberta, é também ele uma forma de dar voz às mulheres vítimas de violação, ajudando a que essa fala se elabore não só de modo pessoal, mas que circule por outros e outras como quem pede e cria companhia. Interessou-me nele a tentativa de um deslocamento no olhar, no estar, porque de modo afirmativo: apesar da dor e do horror, estas mulheres são sobreviventes, resistentes, como pode ser lido nos seus percursos de vida. É uma questão política, por isso. A passagem de vítimas a sobreviventes é também uma forma de acreditar que os humanos podem criar relações solidárias, já que em todos os percursos aqui contados não há relações entre homens e mulheres, mas violência de uns sobre outras. Contributo também para um debate inesgotável sobre as questões da violência e do erotismo.Assim, partindo da ausência de palavras que marca a experiência da violação, se formula aqui uma palavra que possa circular e criar contextos em que, colectivamente, essas experiências possam ser ditas e escutadas, e dessas escutas outros percursos de resistência se possam traçar.Ficha Técnica
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