Tenho 38 anos, dois filhos (de dois e quatro anos) e um marido com uma
pachorra infinita. Sou uma mulher de classe média, com direito a
empregada três dias por semana, um trabalho fora de casa e 22 dias de
férias por ano que vou esticando como uma pastilha elástica, tal como
estico as horas do dia e da noite, o ordenado e a paciência. Coisas tão
normais como sair à noite, jantar fora ou ter uma vida social de adulto,
ficaram desde 2008 reduzidas à insignificância mais absoluta. Não
atravesso o Atlântico desde que fiquei grávida, acompanho os descontos e
os saldos com devoção quase religiosa e há dias em que me olho ao
espelho e pergunto-me quem é esta senhora com umas mamas em estado de
decadência, olheiras até ao umbigo e um cabelo a pedir uma sessão
urgente de cabeleireiro. Vivo numa mistura de quartel de infantaria com
horários rigorosos de refeições, banhos e dormidas, e um Toys’R’Us
caótico. A minha vida não tem nada de especial - aliás, há momentos em
que posso dizer (e digo) que a minha vida é uma merda, sinto-me cansada,
estafada de tanto correr e tentar dar sempre o meu melhor no trabalho,
em casa, com os putos, o marido e os amigos que vão resistindo. E muitas
vezes sei que, apesar de tanto esforço, não consigo, não chego,
falta-me o último sprint para chegar a essa última meta: a perfeição. Só
que a perfeição não existe. Ou pelo menos, no meu mundo, não conheço
nenhuma mulher perfeita. Algumas mães que encontro à porta de escola
estão desempregadas ou têm empregos onde recebem menos 30 por cento do
que os seus colegas masculinos. Outras têm trabalhos tão exigentes que
passam dias sem ver os filhos. Tenho amigas que não podem ter filhos,
algumas não descem nunca dos setenta quilos apesar das dietas, para não
falar das condenadas a saltitar entre relações desastrosas. Nenhuma
delas é imperfeita. Vivem a vida como melhor podem ou sabem. Como eu. E
quando me sinto mais cansada, volto à primeira frase deste texto: tenho
38 anos, dois filhos (de dois e quatro anos) e um marido com uma
pachorra infinita. E a minha vida, por muito de classe média que seja,
com um quotidiano esgotante, é uma boa vida. Tenho amor, amigos para
beber umas imperiais nas esplanadas, livros para ler no autocarro,
saldos, verão e umas mamas desinchadas, sim, mas que dentro de um bom
sutiã ainda me dão bastantes alegrias.
Rita Barata Silvério nasceu em Estremoz, em 1975, data em que começa num constante saltitar entre Portugal e Espanha. Estuda Direito, como tantos milhares de candidatos a...
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