2005, em retrospectiva, não terá sido dos anos mais férteis para alimentar o trabalho do António, do Cid e do Maia, excepção feita aos tempos finais de poder desse alvo perfeito que era o inimaginável primeiro-ministro português, Santana Lopes. O cartoonista precisa de acontecimentos, notícias, desavenças, personagens controversos ou zangas de comadres, da mesma forma que um articulista precisa de assuntos e de quem se ponha a jeito. Somos ambos aves de rapina, voando sobre a planície em busca de presas. Somos ambos horríveis, predadores, salteadores sem misericórdia, cínicos sem remissão. E indispensáveis numa sociedade democrática. É isto que nenhum fundamentalismo, seja religioso ou de outra espécie igualmente ameaçadora, jamais entenderá.Mas há igualmente uma constatação muito curiosa, quando olhamos para estes desenhos, para esta retrospectiva do ano de 2005 (e poderia ser qualquer outro). É a de que a força instantânea que o cartoon tem no momento da sua publicação, esse imediatismo voeyeurista” sobre a notícia, o acontecimento, a frase objecto do cartoon, transforma-se num olhar à distância, desprendido, mesmo nostálgico. O tempo deixa aqui as suas marcas e, quando através destes desenhos vistos em retrospectiva, somos chamados a reviver o que já vivemos, o olhar do cartoonista passa de impiedoso a quase misericordioso. O cinismo, que é uma poderosíssima arma de observação e combate, adoça-se com o tempo e passa a humorismo, que é uma das formas de lembrar a história. Porque o humor é eterno, no sentido em que permanece mesmo depois da urgência da actualidade, e fica então como um registo do tempo que passou. E é aí, verdadeiramente, que se descobre o génio oculto dos cartoonistas que o têm: quando a mesma mensagem que fizeram para um instantâneo temporal mantém, passado um ano ou quarenta anos, uma capacidade de leitura e de reflexão que, sendo diferente, continua a ser pertinente.É esse o objecto e o sentido deste livro.”in Isto é só um Cartoon!, Miguel Sousa Tavares.
Sinopse
2005, em retrospectiva, não terá sido dos anos mais férteis para alimentar o trabalho do António, do Cid e do Maia, excepção feita aos tempos finais de poder desse alvo perfeito que era o inimaginável primeiro-ministro português, Santana Lopes. O cartoonista precisa de acontecimentos, notícias, desavenças, personagens controversos ou zangas de comadres, da mesma forma que um articulista precisa de assuntos e de quem se ponha a jeito. Somos ambos aves de rapina, voando sobre a planície em busca de presas. Somos ambos horríveis, predadores, salteadores sem misericórdia, cínicos sem remissão. E indispensáveis numa sociedade democrática. É isto que nenhum fundamentalismo, seja religioso ou de outra espécie igualmente ameaçadora, jamais entenderá.Mas há igualmente uma constatação muito curiosa, quando olhamos para estes desenhos, para esta retrospectiva do ano de 2005 (e poderia ser qualquer outro). É a de que a força instantânea que o cartoon tem no momento da sua publicação, esse imediatismo voeyeurista” sobre a notícia, o acontecimento, a frase objecto do cartoon, transforma-se num olhar à distância, desprendido, mesmo nostálgico. O tempo deixa aqui as suas marcas e, quando através destes desenhos vistos em retrospectiva, somos chamados a reviver o que já vivemos, o olhar do cartoonista passa de impiedoso a quase misericordioso. O cinismo, que é uma poderosíssima arma de observação e combate, adoça-se com o tempo e passa a humorismo, que é uma das formas de lembrar a história. Porque o humor é eterno, no sentido em que permanece mesmo depois da urgência da actualidade, e fica então como um registo do tempo que passou. E é aí, verdadeiramente, que se descobre o génio oculto dos cartoonistas que o têm: quando a mesma mensagem que fizeram para um instantâneo temporal mantém, passado um ano ou quarenta anos, uma capacidade de leitura e de reflexão que, sendo diferente, continua a ser pertinente.É esse o objecto e o sentido deste livro.”in Isto é só um Cartoon!, Miguel Sousa Tavares.Ficha Técnica
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