Aquilo que Isabel Allegro de Magalhães persegue nas suas leituras tem a ver com uma oscilação entre cenografias e o que se indica com uma palavra a que não estamos habituados: “cintigrafias”. As “cenografias” dizem respeito a uma espécie de postulado insistente: qualquer poesia lírica não é a expressão de um “eu”, mas a encenação colectiva e individual (a distinção é certamente discutível, mas, a existir, exige certamente esta ordem) desse “eu”. Se passarmos da poesia ao romance, as razões acrescem.Mas, se a cenografia permanece num certo plano da imanência, estabelecendo-se apenas linhas de perspectiva num cenário, já a “cintigrafia” parece apontar para a consideração de dois planos (que é o dispositivo tradicional de toda acrítica: só há ciência onde atrvés do manifesto nos aproximamos do latente estruturante). O termo aponta para a prática clínica: trata-se de “um meio técnico de diagnóstico que observa o esqueleto humano depois de no organismo ter sido injectada uma substância radioactiva que o torna cintilante”. Nos termos de análise literária, é algo que começa por ser interior ao trabalho poético: uma articulação activa e produtiva de fingimento e testemunho. E que se pode apresentar nestes termos: “uma recapitulação que pelo fingimento poético cria cenas onde se reinventa o testemunho de um ‘eu’ que em diferido sintetizam”. Mas podemos sem abuso transferir o mecanismo para o próprio trabalho crítico: quem escreve sobre um texto literário opera também uma recapitulação: “A poesia é o que recapitula o mundo /chamando-o em cada chama / pela chama de cada sílaba”, como escreve Manuel Gusmão. Ora esta recapitulação é sempre um refazer por palavras de algo que dá testemunho do que tinha sido feito, mas que faz ver um além sempre suspenso desse fazer: daí a cintilação por onde se entrevê a estrutura que sustente um corpo.Mas como se trata de um processo em aberto, há algo de estruturalmente diferido que suspende o momento da evidência plenaO que ganha particular relevo nas experiências da pluralidade irredutível que o romance nos traz: “Um texto (escreve a Autora) é pois um ponto de encontro das personagens, o centro de uma força, centrípeta, para onde convergem, vindas de uma origem perdida ou desconhecida, e de outra força, centrífuga, que as faz, no final, partir”.
Sinopse
Aquilo que Isabel Allegro de Magalhães persegue nas suas leituras tem a ver com uma oscilação entre cenografias e o que se indica com uma palavra a que não estamos habituados: “cintigrafias”. As “cenografias” dizem respeito a uma espécie de postulado insistente: qualquer poesia lírica não é a expressão de um “eu”, mas a encenação colectiva e individual (a distinção é certamente discutível, mas, a existir, exige certamente esta ordem) desse “eu”. Se passarmos da poesia ao romance, as razões acrescem.Mas, se a cenografia permanece num certo plano da imanência, estabelecendo-se apenas linhas de perspectiva num cenário, já a “cintigrafia” parece apontar para a consideração de dois planos (que é o dispositivo tradicional de toda acrítica: só há ciência onde atrvés do manifesto nos aproximamos do latente estruturante). O termo aponta para a prática clínica: trata-se de “um meio técnico de diagnóstico que observa o esqueleto humano depois de no organismo ter sido injectada uma substância radioactiva que o torna cintilante”. Nos termos de análise literária, é algo que começa por ser interior ao trabalho poético: uma articulação activa e produtiva de fingimento e testemunho. E que se pode apresentar nestes termos: “uma recapitulação que pelo fingimento poético cria cenas onde se reinventa o testemunho de um ‘eu’ que em diferido sintetizam”. Mas podemos sem abuso transferir o mecanismo para o próprio trabalho crítico: quem escreve sobre um texto literário opera também uma recapitulação: “A poesia é o que recapitula o mundo /chamando-o em cada chama / pela chama de cada sílaba”, como escreve Manuel Gusmão. Ora esta recapitulação é sempre um refazer por palavras de algo que dá testemunho do que tinha sido feito, mas que faz ver um além sempre suspenso desse fazer: daí a cintilação por onde se entrevê a estrutura que sustente um corpo.Mas como se trata de um processo em aberto, há algo de estruturalmente diferido que suspende o momento da evidência plenaO que ganha particular relevo nas experiências da pluralidade irredutível que o romance nos traz: “Um texto (escreve a Autora) é pois um ponto de encontro das personagens, o centro de uma força, centrípeta, para onde convergem, vindas de uma origem perdida ou desconhecida, e de outra força, centrífuga, que as faz, no final, partir”.Ficha Técnica
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