Domingos Monteiro
"Domingos Monteiro faleceu em 17 de Agosto de 1980, com setenta e sete anos de idade. Advogado, escritor, jornalista, editor, a sua vida atravessou quase oito décadas, em que a sua personalidade se afirmou por uma constante busca de um destino, onde os seus ideais de liberdade se transformam, não raras vezes, em sonhos singulares, de enigmáticas radiações.Transmontano de boa cepa, nasceu em Barqueiros, a seis de Novembro de 1903. Era filho legítimo de Domingos Monteiro Pereira e de sua Mulher, D. Elvira de Assunção Coelho Monteiro, ambos naturais da mesma freguesia de Barqueiros. Neto paterno de António Monteiro Pereira e de D. Maria Monteiro do Carmo, e materno de José Carlos Rodrigues Coelho e de D. Virgínia Benedita de Assunção Coelho.Antes mesmo de entrar para a Universidade de Lisboa, onde viria a licenciar-se em Direito, com dezoito valores, no ano de 1927, já a sua veia poética se tinha manifestado. Aos dezasseis anos publicou o primeiro livro de versos, Oração do Crepúsculo (1919), prefaciado por Teixeira de Pascoais, seguido, dois anos depois, pela Nau Errante, que dedicou a este grande poeta. O primeiro soneto desta obra é quase uma consagração: ""Meu livro é para vós, para vós feito... é para vós, mulheres do meu país."" A obra escrita de Domingos Monteiro, em horas de isolamento e de evasão, revela, inevitavelmente, a personalidade de um grande conversador. Através das suas narrativas, o escritor confessa-se e olha para o mundo exterior, numa ânsia de liberdade. Foi este anseio de liberdade que o levou, ainda jovem, a fundar o ""Partido da Renovação Democrática"" e depois o jornal ""Diário Liberal"" de que foi membro da Comissão Directiva e Director Executivo. Já licenciado, foi advogado de defesa de Mário Castelhano e de Manuel Rijo e de muitos outros opositores do regime político então vigente.Domingos Monteiro tinha, entretanto, contraído matrimónio com D. Maria Palmira de Aguilar Queimado (1938). Deste casamento, nasceu a sua única filha, Estela, hoje Professora da Faculdade de Medicina de Lisboa.O casamento foi dissolvido por divórcio, em 1946, e só muito mais tarde, em 1971, Domingos Monteiro contrai de novo matrimónio, com D. Ana Maria de Castro e Mello Trovisqueira.Já nessa altura os seus méritos de Escritor tinham sido publicamente reconhecidos. Em 1965 o seu livro O Primeiro Crime de Simão Bolandas tinha recebido o ""Prémio Nacional de Novelística"", no mesmo ano, o Dr. Domingos Monteiro foi eleito Sócio Correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Como Sócio Efectivo, sucedeu, em 1969, na Cadeira que tinha pertencido a Aquilino Ribeiro, logo antes de Delfim Santos.O Brasil, por proposta de Pedro Calmon e Jusoé Montello, entregou-lhe igualmente o lugar que, na Academia Brasileira de Letras tinha pertencido a outros ilustres escritores portugueses: Eugénio de Castro, Augusto de Castro e Joaquim Paço d'Arcos.Outras distinções consagraram a sua obra: de novo o ""Prémio Nacional de Novelística"", em 1972, o ""Prémio Diário de Notícias"" em 1967.Vários livros e contos foram traduzidos em Castelhano,Catalão, Inglês, Alemão, Polaco e Russo, e incluídos em diversas antologias nacionais e estrangeiras.E o Cinema não deixou de aproveitar as suas novelas para a realização de grandes-metragens, apresentadas nas salas de televisão.Para além da sua actividade de escritor e editor, à frente da Sociedade de Expansão Cultural, que durante vários anos divulgou as obras de autores portugueses, muitos deles até então inéditos, Domingos Monteiro dedicou os últimos vinte e dois anos da sua vida profissional ao Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, que ajudou a criar. Foi na novelística que Domingos Monteiro mais se distinguiu. A sua prosa é directa e fluente. António Quadros assim o reconheceu, ao afirmar:""Uma novelística da razão vital, como a que realizou, intuitiva e exemplarmente, Domingos Monteiro, é uma novelística que se amplia a todas as dimensões de ser homem, na sociedade, na natureza, no tempo e no mistério de existir."" Na bibliografia de Domingos Monteiro só aparece uma obra ostensivamente designada por romance, Caminho para Lá, talvez por ser constituída por dezoito capítulos. Seria a primeira de um tríptico que nunca foi concluído.Domingos Monteiro considerava-se um poeta, embora quase toda a sua obra tenha sido vertida em prosa. Mas poeta era, sem dúvida. Para além dos primeiros livros de versos que publicou na sua juventude, e a que já atrás nos referimos, apenas nos deixou dois outros livros de poemas: Evasão, publicado em 1953 e, mais recentemente, uma colecção de sonetos publicada em 1978. Mas no seu espólio foram encontrados muitos poemas inéditos, alguns dos quais dedicados a sua futura Mulher, D.Ana Maria. Num deles, talvez influenciado pela grande diferença de idades, diz: ""Nunca senti passar o tempo... Nunca! Nunca o tempo jamais me perturbou... E as folhas secas com que o Outono junca o chão sem mágoa ao próprio vento as dou, Nunca senti passar o tempo... e agora Do meu desdém, o tempo se vingou E só por ti minh'alma se enamora Humildemente, do que já não sou. Oh minha ardente mocidade, volta! Por um momento só. Que eu viva apenas Esse momento... e possa merecê-la. Que humildemente aceito, sem revolta, Todas as dores, meu Deus! todas as penas E até a maior pena... a de perdê-la!"" Foi a sua segunda Mulher que teve um papel importante na génese dos seus contos e narrativas, publicados depois dos anos 60, colaborando estreitamente com ele, em todas as fases da elaboração do seu trabalho.Domingos Monteiro arquitectava o enredo dos seus livros e construia mentalmente o plano da obra. Os seus últimos livros foram ditados a D. Ana Maria como quem conta um conto:A partir daí, era a ela que competia a edição do texto e a sua conclusão até toda a obra estar impressa."
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