Celso Cunha
Licenciou-se em Letras em 1940, na Universidade do Distrito Federal (UDF). Foram aí seus professores Jean Bourciez, Jacques Perret, Georges Millardet, filólogos europeus levados ao Brasil para ajudar à criação de um Curso Superior de Letras, Antenor Nascentes, futuro padrinho de casamento, e Sousa da Silveira, o seu orientador de doutoramento (Pereira, pp. XV-XVI). Com o ensino e a política na tradição familiar, ele próprio desempenharia alguns cargos públicos, entre outros os de director da Biblioteca Nacional (1956-9), secretário de Educação e Cultura da Guanabara (1960), membro dos Conselhos Federais de Educação (1962-6) e de Cultura (1986-9). Foi incumbido da revisão do texto da constituição do Brasil (1988) (Pereira, p. XVII). É ocioso enumerar sociedades científicas a que pertenceu, prémios que recebeu, congressos que organizou.
Como professor, começou logo aos 17 anos, no {mesmo} famoso Colégio Pedro II {de que fora aluno}. Em 1952, ganharia a cátedra no Colégio, após disputadas provas, sucedendo a Antenor Nascentes; e, cinco anos depois, a cátedra de Língua Portuguesa na Faculdade Nacional de Filosofia, substituindo Sousa da Silveira. Nesta Faculdade, futura Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, leccionaria até quase ao fim da vida (Pereira, p. XVII-XVIII). «Se a sua carreira docente se desenrolou em várias escolas nacionais e estrangeiras [...; incluindo as Universidades de Paris-Sorbonne, Colónia, Lisboa], o reconhecimento do seu imenso saber e a extraordinária disponibilidade para comunicar os resultados das suas investigações in progress levaram-no a diversas partes do mundo para falar da România antiga e da «Romania Nova», de crítica textual ou de linguística histórica do Brasil, do proto-crioulo português ou de poética camoniana, de versificação trovadoresca ou de diassistema e língua literária, de scripta medieval galega e portuguesa ou da caracterização sociolinguística do Nordeste brasileiro» (Elsa Gonçalves, p. 197).
Trabalhava sobretudo de noite, só descansando depois da alvorada, e entre a sua biblioteca de mais de 30000 volumes, encadernados em couro-de-cabra e papel marmoreado francês. «Os livros eram o seu meio ambiente, a sua ecologia preferida. [...] Por entre os livros, no seu apartamento de Humaitá, circulavam desinibidamente colegas e alunos. Sempre tive dificuldade em concluir se a casa era a extensão da academia ou se, pelo contrário, era a academia que prolongava a sua residência-biblioteca» (Portella, p. LXIII). Descartando já a bibliofilia - como se viu com Serafim da Selva Neto, pecado banal entre filólogos -, tinha Celso Cunha outras idiossincrasias: o convívio boémio - em Paris, «recitava António Nobre junto à estátua de Montaigne [...] e, na madrugada, o seu esguio figurino de toureiro impulsionava-o a sapatear flamenco nas sombrias boîtes da Rue Monsieur le Prince» (Araújo, p. XLV); no Rio, uma vez, «para comemorar seu aniversário, organizou-se o Pagode do Celso, show musical com programa impresso, e seu apartamento [...] abria as portas para a Velha Guarda da Portela, e os sambistas Nei Lopes e Wilson Moreira» (Pereira, pp. XXI-XXII) - e a superstição - com ele «aprendi como se pode ser um grande sábio, um filólogo de rigor positivista, um católico observante e respeitoso do ritual e ao mesmo tempo acreditar em macumba, freqüentar os pais e as mães de santo, trazer em volta do pulso as fitas do Senhor do Bonfim» (Stegagno Picchio, p. XIII); «dedicava à sexta-feira as decisões difíceis e melindrosas, pois, segundo o dito por uma cigana em Paris, este era o seu dia de sorte»
Sou este autor e quero editar a minha página pública
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