A Bíblia (literalmente os livros) é um heterogéneo espaço literário. Reúne desde o desenho que as genealogias repetem monotonamente, traço a traço, até ao nome que assoma uma só vez, como um relâmpago. Desde cosmogonias a acordos políticos e guerreiros, desde alterações cósmicas a altercações domésticas. Nela encontramos: tragédias, comédias, epopeias, autobiografias, cantos de amor, relatos de naufrágios, índices historiográficos, peças de folclore, inventários, livros de viagem, registos de propriedade, bênçãos, maldições, calendários, aforismas… numa profusão que infinitamente se desdobra. A Bíblia representa umatlas iconográfico”, estaleiro desímbolos”, imenso dicionário”, como Paul Claudel lhe chamou. É um reservatório de histórias, um armário cheio de personagens, um teatro do natural e do sobrenatural, um fascinante laboratório de linguagens. Usa a língua literária, claro, mas não recusa o linguajar desnudo que é o dizer corrente. Mantém uma respiração polifónica, sumptuosa e litúrgica,mas também uma sintaxe pobre, esforçada, cheia de lacunas e de anomalias. A Bíblia não escolhe propriamente uma linguagem: é uma monumental acumulação de possibilidades. É tudo isso e também aquilo que nem conseguimos dizer, porque é tão difícil, tão diferente dizer uma literatura construída, não o esqueçamos, por poetas e escritores anónimos, uma literatura que foi segredada e recitada durante séculos, antes de ser escrita, que é tecida de palavras que solicitam o indizível, e que foram, e que são, não apenas a expressão das histórias, mas o rastro de um estremecimento que as atravessa. Talvez seja isso o vento de Deus.» José Tolentino Mendonça (excerto do prefácio)
Sinopse
A Bíblia (literalmente os livros) é um heterogéneo espaço literário. Reúne desde o desenho que as genealogias repetem monotonamente, traço a traço, até ao nome que assoma uma só vez, como um relâmpago. Desde cosmogonias a acordos políticos e guerreiros, desde alterações cósmicas a altercações domésticas. Nela encontramos: tragédias, comédias, epopeias, autobiografias, cantos de amor, relatos de naufrágios, índices historiográficos, peças de folclore, inventários, livros de viagem, registos de propriedade, bênçãos, maldições, calendários, aforismas… numa profusão que infinitamente se desdobra. A Bíblia representa umatlas iconográfico”, estaleiro desímbolos”, imenso dicionário”, como Paul Claudel lhe chamou. É um reservatório de histórias, um armário cheio de personagens, um teatro do natural e do sobrenatural, um fascinante laboratório de linguagens. Usa a língua literária, claro, mas não recusa o linguajar desnudo que é o dizer corrente. Mantém uma respiração polifónica, sumptuosa e litúrgica,mas também uma sintaxe pobre, esforçada, cheia de lacunas e de anomalias. A Bíblia não escolhe propriamente uma linguagem: é uma monumental acumulação de possibilidades. É tudo isso e também aquilo que nem conseguimos dizer, porque é tão difícil, tão diferente dizer uma literatura construída, não o esqueçamos, por poetas e escritores anónimos, uma literatura que foi segredada e recitada durante séculos, antes de ser escrita, que é tecida de palavras que solicitam o indizível, e que foram, e que são, não apenas a expressão das histórias, mas o rastro de um estremecimento que as atravessa. Talvez seja isso o vento de Deus.» José Tolentino Mendonça (excerto do prefácio)Ficha Técnica
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