Lord Dunsany

De nome John Moreton Drax Plunkett (1878-1957), Lord Dunsany (assim chamado por ser o décimo oitavo lorde do Castelo de Dunsany, na Irlanda) nasceu em Londres no seio de uma família abastada.Apesar de ter conhecido uma certa popularidade no seu tempo, sobretudo como dramaturgo (mas também como contista, romancista, poeta e ensaísta), o facto de se tratar de um aristocrata inglês com raízes irlandesas, numa época em que a Irlanda começara a lutar pela sua independência, não teria contribuído muito para a sua popularidade, quer no país em que possuía o seu castelo, mas onde era visto como um confessado Unionista, quer nos meios ingleses em que se movia. De facto, o seu nome é hoje em dia desconhecido de um vasto público, e geralmente associado à produção de outros autores que ele teria influenciado, tal como H. P. Lovecraft, cujos primeiros textos ficcionais, reveladores de um certo simbolismo tardio, espelham muitas das suas características estilísticas, especialmente em obras como A Demanda Onírica da Kadath Desconhecida. Contudo, como percursor de géneros ficcionais, marginalizados até há bem pouco tempo - sobretudo por certos empedernidos meios académicos - tais como a Fantasia ou Ficção Científica, também é visto como tendo influenciado escritores que se tornaram bem mais populares do que ele, tais como J. R. R. Tolkien e Ursula K. Le Guin. Com efeito, Lord Dunsany foi uma das primeiras vozes narrativas a substituir o chamado «mundo real», quase obrigatório em grande parte da Literatura canonizada (desde a segunda metade do século XIX e através do século XX), por um mundo alternativo inventado pelo autor, mas sem inevitáveis preocupações de teor alegórico. Neste aspecto, também poderíamos dizer que a obra de Jorge Luis Borges também lhe dá eco, tal como o Italo Calvino de As Cidades Invisíveis. Porém, nenhuma escrita se cria a partir do nada, e os mundos ficcionais de Lord Dunsany devem muito ao gosto do seu tempo pelo chamado Orientalismo, tal como a certos ambientes não muito distantes dos que poderemos encontrar em muitos dos textos fin-de-siècle do simbolismo francês. E ainda, se Dunsany nos recorda certos autores que o procederam, também nos evoca outros seus contemporâneos, como o rebelde francês Alfred Jarry, já para não mencionarmos toda uma série de autores surrealistas, que escreviam numa época em que ele já abandonara os seus mais ousados voos de sonho e fantasia, em particular ao dar-se conta, já tarde na sua longa vida, dos horrores da Segunda Guerra Mundial.Tal como em grande parte das produções literárias previamente referidas, o que preocupava Dunsany, sobretudo nos breves contos que aqui vos apresentamos, não era tanto a representação de um mundo verídico, mas antes a de um mundo alternativo em que imaginação e estética literária andassem quase sempre de mãos dadas. Assim, quer em The Book of Wonder (O Livro do Deslumbramento), 1912, quer em The Last Book of Wonder (O Novo Livro do Deslumbramento), 1916, poderemos ler pequenas histórias logicamente desconcertantes, reler uma ou outra frase, duvidando da tradução da mesma, dado o seu pendor para o absurdo, penetrar em paisagens oníricas, como se estas se encontrassem mesmo à beira dos lugares mais banais do nosso dia-a-dia, ouvir premonições contra a poluição, numa Inglaterra já então dominada pela indústria e pelo comércio, tal como desfrutar de uma ironia e de um humor bem inglês, capazes de que nos invocarem ainda, entre muitos outros, autores como Ambrose Bierce.

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