Ler Almeida Faria é regressar, de outro modo, a Yoknapatawpha, a criação de William Faulkner para o implacável sul, essa paisagem de morte, infortúnio, exasperação e declínio. A Paixão é a reinvenção desse sul povoado de vozes que se sucedem e se contaminam. Não é por acaso que a stream of consciousness
de Piedade anuncia a de João Carlos que anuncia a de Arminda que
anuncia a da Mãe que anuncia a de André que anuncia a de Francisco que
anuncia a de Jó que anuncia a de Tiago que anuncia a de Moisés que
anuncia a de Estela, e assim sempre, com alguns sobressaltos e
descontinuidades, num vórtice cruzado de tempos, qualia, experiência. Yoknapatawpha
densamente povoada, cingida a uma duração que parece transbordar como
negra densidade do tempo: «Manhã», «Tarde», «Noite». Ler Almeida Faria é
compreender como só a palavra poderá fazer do espaço tempo, numa
modulação do humano que é, afinal, uma lógica do sensível e do concreto
em que as ideias são ideias do corpo, ideias no corpo, e em que o
brilho metafísico do mundo é devolvido, como um eco sem origem ou cuja
origem não poderá sequer ser ponderada. Tudo acaba em morte, mas também
em ressurreição, a ressurreição do que não tem nome, ainda. A Paixão
será porventura a mais espessa cortina de linguagem que a literatura
portuguesa terá produzido na segunda metade do século XX. Podemos dizer,
quase nostalgicamente, que já foi grande a escrita em português. (Luís Quintais)
Sinopse
Ficha Técnica
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