O presente trabalho de José Luís Neto tem a sua origem num encontro com uma imagem de Joshua Benoliel, no arquivo fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa, realizada em 5 de Fevereiro de 1913 durante a cerimónia de abolição do capuz na penitenciária de Lisboa, para o jornal O Século, e que marca o fim da obrigatoriedade do uso deste dispositivo, que havia sido introduzido pelo regulamento dos serviços prisionais em 1884. A imagem, realizada no anfiteatro desse estabelecimento prisional, apresenta-nos um fragmento dos momentos que antecederam essa cerimónia. Dela nos chega a visão desse estranho lugar em que os corpos dos presidiários se distribuem em compartimentos individuais, sem contacto visual com o espaço contíguo, e dos quais apenas vemos a cabeça, coberta com o capuz branco que os obrigava a esconder a cara em todos os locais e todos os momentos em que se pudessem avistar mutuamente (e por ironia este era um dos locais onde esse uso era dispensado, dada a impossibilidade de contacto). Estão de frente para o observador e, da parte superior, ao fundo, uma luz forte irrompe pelas janelas, cegando a nossa visão da cena, iluminando-nos como se fôssemos nós o objecto olhado. É uma imagem impressionante (termo que, tratando-se de uma fotografia, vê aqui alargado o seu sentido) que nos toca pela estranheza da situação e nos interroga através da sucessão daqueles rostos ocultos que nos olham (ainda é neste momento uma suposição) a partir da sua opacidade. E também alguns pormenores, a presença do detalhe que nos desvia da cena para o particular, um braço que pende de uma das celas, um rosto que se adivinha descoberto ou a fragilidade dos dois guardas esmagados pela silenciosa presença dos que são guardados.José Luís Neto parte do negativo original da imagem, em formato 9 x 12 cm, e é sobre ele que vai centrar a sua atenção. É um olhar para dentro da fotografia pelo lado da sua origem, o do negativo. Ir duplicando fragmentos, isolando figuras, fotografando o grão e ampliando a sua escala até trazer a uma visibilidade coerente o interior de cada uma das celas, individualizando a mancha do seu ocupante. Desloca assim o seu olhar da imagem para o próprio negativo, tentando aí recuperar, do modo mais fiel possível, a matéria puramente fotográfica. […]” Francisco Feio
Sinopse
O presente trabalho de José Luís Neto tem a sua origem num encontro com uma imagem de Joshua Benoliel, no arquivo fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa, realizada em 5 de Fevereiro de 1913 durante a cerimónia de abolição do capuz na penitenciária de Lisboa, para o jornal O Século, e que marca o fim da obrigatoriedade do uso deste dispositivo, que havia sido introduzido pelo regulamento dos serviços prisionais em 1884. A imagem, realizada no anfiteatro desse estabelecimento prisional, apresenta-nos um fragmento dos momentos que antecederam essa cerimónia. Dela nos chega a visão desse estranho lugar em que os corpos dos presidiários se distribuem em compartimentos individuais, sem contacto visual com o espaço contíguo, e dos quais apenas vemos a cabeça, coberta com o capuz branco que os obrigava a esconder a cara em todos os locais e todos os momentos em que se pudessem avistar mutuamente (e por ironia este era um dos locais onde esse uso era dispensado, dada a impossibilidade de contacto). Estão de frente para o observador e, da parte superior, ao fundo, uma luz forte irrompe pelas janelas, cegando a nossa visão da cena, iluminando-nos como se fôssemos nós o objecto olhado. É uma imagem impressionante (termo que, tratando-se de uma fotografia, vê aqui alargado o seu sentido) que nos toca pela estranheza da situação e nos interroga através da sucessão daqueles rostos ocultos que nos olham (ainda é neste momento uma suposição) a partir da sua opacidade. E também alguns pormenores, a presença do detalhe que nos desvia da cena para o particular, um braço que pende de uma das celas, um rosto que se adivinha descoberto ou a fragilidade dos dois guardas esmagados pela silenciosa presença dos que são guardados.José Luís Neto parte do negativo original da imagem, em formato 9 x 12 cm, e é sobre ele que vai centrar a sua atenção. É um olhar para dentro da fotografia pelo lado da sua origem, o do negativo. Ir duplicando fragmentos, isolando figuras, fotografando o grão e ampliando a sua escala até trazer a uma visibilidade coerente o interior de cada uma das celas, individualizando a mancha do seu ocupante. Desloca assim o seu olhar da imagem para o próprio negativo, tentando aí recuperar, do modo mais fiel possível, a matéria puramente fotográfica. […]” Francisco FeioFicha Técnica
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